26 de nov de 2007

INSTITUTO CARNAUBA MOBILIZA 450 PRODUTORES PARA O PROJETO RIO, EDUCAÇÃO E FLORESTA


O projeto Rio, Educação e Floresta busca o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga, têm como objetivo capacitar e acompanhar 240 Produtores da Agricultura Familiar na implantação de Sistemas Agroflorestais, em 04 anos, nos municípios de Cariré, Groaíras, Forquilha, Sobral, Massapê, Alcântara e Meruoca. É financiado pelo FNMA- Fundo Nacional do Meio Ambiente, do Ministério do Ambiente e executado pelo Instituto de Ecologia Social Carnaúba.

Como estratégia de mobilização e sensibilização dos produtores, realizou-se 08 Seminários, sendo 01 por município, com o objetivo de expor as propostas do projeto.

A realização dos seminários em sua maioria aconteceu na sede dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Em Sobral aconteceu no Auditório Dom Walfrido, e o de Meruoca no Centro de Treinamento da Diocese. No total participaram 448 pessoas nos 08 seminários.

Na primeira parte dos seminários aconteceram a palestra Desenvolvimento Sustentável da Caatinga, proferida pelo Dr. João Ambrósio Araújo Filho, ex-pesquisador da EMBRAPA CAPRINOS, e professor do Curso de Zootecnia da Universidade Estadual Vale do Acaraú. O professor Ambrósio é reconhecido por suas pesquisas na área de manejo da caatinga, sendo considerado um dos profissionais com maior experiência em manejo agrosilvopastoril.

Nas palestras o professor Ambrósio aborda a situação de degradação atual do Bioma Caatinga, mostrando dados das perdas de solo, a diminuição da pluviosidade, a erosão da fauna e flora, ou seja, como o bioma caatinga se encontra hoje na realidade.

Para o professor Ambrosio, “ na estrutura fundiária dos sertões nordestinos coexistem os dois extremos de sua perversidade: de um lado o latifúndio improdutivo, do outro o minifúndio degradado e em decadência produtiva. O segundo caso, embora abarque a vasta maioria dos produtores, cobre baixo percentual das terras. Ele detém o grosso dos rebanhos bovino, ovino e caprino e é responsável direto por cerca de 60% da produção do que colocamos em nossa mesa. Porém, a necessidade de produzir o seu sustento leva esses agricultores a explorar sistemas de produção que pressionam os recursos naturais renováveis além de sua tolerância ecológica, induzindo assim processos degradativos dos ecossistemas da caatinga, com perdas da solo pela erosão, da biodiversidade da fauna e da flora pelo extrativismo predatório e declínio da produção agrícola e pastoril a níveis incompatíveis com a geração de uma renda sustentável. Os dados atuais, em condições favoráveis de chuvas, são de 400 kg de grãos 2,8 kg de carne e 3,5 estéreos de madeira por hectare e por ano!”

Ainda segundo professor Ambrosio “Configura-se, pois um quadro de urgência da busca de alternativas de sistemas de produção que respondam pelo incremento da renda e pela redução dos processos degradativos e recuperação dos ecossistemas. Neste contexto, a exemplo do vem ocorrendo em outras partes do mundo com problemas idênticos, a opção pelos sistemas de produção agroflorestais apresenta-se como, possivelmente, a melhor alternativa. Esses sistemas agrícolas baseiam-se no uso de processos de produção de baixo impacto e que modelam o campo de produção agrícola nos moldes dos ecossistemas naturais, no que tange à manutenção dos ciclos geobioquímicos fechados, preservando as árvores, como garantia da circulação de nutrientes e reduzindo ao máximo a dependência de insumos externos, ou seja, tornando-os sustentáveis”

O assunto chamou a atenção dos produtores, pois na apresentação puderam visualizar os efeitos das práticas extrativistas do uso do fogo e pesticidas. Alguns relataram que nas épocas dos seus avós e pais era possível ver árvores e animais silvestres que hoje já não se ver. A identificação com as situações é imediata.

Em seguida o projeto Rio, Educação e Floresta é apresentado aos produtores, onde são apresentado as metas e atividades previstas para os 4 anos. Após a apresentação os produtores esclarecem duvidas, e então são chamados a aderir ou não ao projeto.

O publico atendido nos seminários foram bastante variados, com participação de homens e mulheres agricultores. Chama à atenção a presença marcante em todos os municípios de agricultores sem terra, que trabalham nas terras de terceiros, representando um limitante para o projeto, pois muitos destes proprietários não têm compromisso com o meio ambiente.

A vontade de trabalhar a agroecologia é marcante nesses agricultores, porém, a falta da terra compromete o interesse, pois não podem plantar arvores para produção de frutas e madeira, por conta de que os proprietários não permitem com receio que um dia venha a indenizações e perda da terra para os agricultores.

A situação os deixa preocupados, pois segundo os produtores as práticas do fogo e a extração de madeira não têm previsão para parar. E o tempo em que haverá muita fome e sede chegará, e a busca por comida e terra será com grande luta. Segundo a opinião de muitos não estar longe de acontecer, pois hoje a baixa produção e a falta d’água já castiga e compromete a vida dos agricultores/as e seus filhos.

Com o debate nos seminários concluímos que a luta pela terra ainda não é uma questão resolvida em nossa região; que parte dos sindicatos e os agricultores organizados estão sensibilizados para a preservação do meio ambiente. Mas em terras alheias não se faz agricultora sustentável, nem tão pouco reflorestamento.